sábado, 19 de fevereiro de 2011

OS DOIS VELHOTES

Na carruagem-restaurante, dois velhotes sentados face a face, tiram do bolso a mesma embalagem de remédio e dissolvem o pó nos respectivos copos de água. Depois, olham-se como dois cúmplices, e sorriem...
- Desculpe, mas não me diga que também sofre da coluna!...
- É verdade. E pelo que vejo, o senhor também.
- Exactamente. E não pode calcular o prazer que sinto...
- Prazer?!... Olhe que a mim não me dá prazer nenhum.
- Perdão! Não me referia às dores, mas ao prazer de encontrar um colega...
- Pois foi o mesmo que pensei quando li o rótulo da sua embalagem!
- Artrose?...
- Acertou.
- Eu, bicos de papagaio...
- Também tenho. Não sente de vez em quando uns estalidos?
- Ai que não sinto!... Se o comboio não fizesse tanto barulho até lhos fazia ouvir.
- Eu, só p’ra médicos tem sido uma fortuna: chapas, análises e, por fim, receitaram-me estes pós.
- Exactamente o meu caso.
- Eu só senti melhoras uma vez. Estava deveras empenado e de tão desesperado fui a um armário que temos lá em casa, tirei uma caixa ao acaso...
- E então?!...
- Durante oito dias não soube o que eram dores. Depois, e ainda por acaso, voltei a ler a literatura e dei conta de que o papel estava trocado e que os supositórios eram para a gripe! Não lhe conto nada...
- Efeito psicossomático...
- Evidentemente!
- E quem sabe até se não seria a ginástica que fez ao pôr o supositório que lhe pôs a vértebra no lugar?
- Também já pensei nisso...
- Sabe, é que às vezes um gesto, uma posição diferente... E a propósito: para onde vai se não sou indiscreto?
- Olhe, vou fazer uma cura de lama, porque dizem que faz muito bem...
- Tem graça. Eu também. Antigamente, quando o meu avô Marcelino ia muitas vezes ao médico e se queixava sempre da mesma coisa, o doutor mandava-o à merda! Agora, com todas estas modernices, mandam-nos fazer banhos de lama...
- A coisa não dá para rir, mas apetece dizer que nos tiraram da merda e nos meteram na lama...
- Coisas do progresso, Amigo! Antigamente era uma pobreza franciscana: sinapismos, papas de linhaça, ventosas, caldos de galinha... Até na morte éramos pobres! Hoje, morre-se rico... Veja a quantidade de €uros que um cristão engole em remédios antes de entregar a alma ao Criador!...
- É verdade... Mas está na hora de tomarmos os nossos pozinhos...
- Tem razão. Então à sua saúde!
- E à sua também!...





sábado, 22 de janeiro de 2011

ATCHIM!...

Era segunda-feira. Chovia e ventava. Abri o chapéu, e partiu-se uma vareta. Caíram-me uns pingos no nariz. Os óculos embaciaram-se. Paro. Limpo-os com o lenço e continuo o caminho. Passou um automóvel e os borrifos da água que a sarjeta não engoliu por ter a boca tapada, encharcaram-me as calças.
Um banho gratuito. E frio. Instintivamente, e ao sentir as pernas molhadas, não contive um palavrão.
O jovem condutor deve ter ouvido, porque, sorridente, mo devolveu traduzido naquele gesto dos três dedos: um estendido e os outros dois dobrados, que é bem conhecido de todos!
Um grupo de alunos, rapazes e raparigas, de regresso das aulas, presenciava a cena:
- «Então velhote, uma banhoca de borla…» – disse, sorrindo, uma das raparigas.
Risota geral. E eu também achei graça à espontaneidade da menina de calça de ganga, ténis desapertados e cabelo desgrenhado. É assim esta nossa juventude de hoje – desinibida e irreverente por fora e por dentro!
E lá continuei o caminho pensativo. Quando passava em frente do monumento ao Soldado Desconhecido, tive a sensação de que ele, lá do alto do seu pedestal, me piscou o olho numa cumplicidade brônzea e fria como as minhas pernas. Coisas de velho. Uma estátua a ter sentimentos!...
De repente, lobrigo ao longe alguém conhecido, mas que ao avistar-me, faz de conta que não me vê, e muda de passeio. E ainda bem, porque também não estava com grande disposição para conversas. Tanto mais que é um daqueles sujeitos que de nada mais sabe falar que não seja de política. E como eu detesto ciências ocultas…
O vento aumentou de intensidade e ainda bem, porque a continuar assim, era uma vez um guarda-chuva. Entretanto, cheguei. Ena pá!... Que grande fila!
Antigamente, (que raio de palavra esta!...) havia três ou quatro funcionários e não havia “bichas”… Ao ver a minha expressão de surpresa o homem do rabo da fila, – um sujeito simpático, com cara de bon vivant, – sorriu, e falou: «Isto hoje está melhor que na semana passada, patrão! É a terceira vez que tento e tanto tempo espero que acabo por me chatear e vou-me embora…» Levou o cigarro aos lábios aspirou a fumaça duas vezes e continuou: «A minha patroa diz-me p’ra fazer como ela que vai para o Centro de Saúde às quatro da matina p’rá arranjar vez e ter consulta, mas isso de andar de noite como as corujas, não é cá comigo…»
Sorri e concordei. E vi tanta gente à espera, o céu tão cheio de nuvens negras, e o meu guarda-chuva de asa caída que meti a senha no bolso, pus pés a caminho e regressei a penates. Sem os papéis preenchidos, com os pés molhados, as calças coladas às pernas, mas já a pressentir uma daquelas constipações que nem queiram saber… à… à… Atchim!...








sábado, 8 de janeiro de 2011

Ó TEMPO VOLTA PRA TRÁS...



CARNAVAL de 1992
Quem diria que já la vão quase
19 anos!....

É ASSIM QUE AINDA SE FALA NA MADEIRA

Pretexto para um Novo Acordo…Semântico?
“Tava o vendeiro no paleio com o vadio do vilão quando ouviu uma zoada.
Era a água de giro. O buzico do levadeiro que vinha mercar palhetes à
venda, vinha às carreiras e a fazer patifarias e a chungalhar os badalos da vizinhança pelo caminhe abaixe como um demoine. Dá-lhe uma cangueira, trompicou nas passadas e empuxou o vilhão qué um cangalhe dum home. Bate cas ventas no lanço e esmegalha a pucra. O vilão dá-lhe uma reina vai a cima dele para lhe dar uma relampada, patinha uma poia. Ficou todo sovento.
O vendeiro dá-lhe uma rezonda por ele querer malhar num bizalho dum pequeno.
Vem o levadeiro, e, ao ver o vassola, que anda à gosma e a encher o bandulho à custa dos outros, a ferrar com o filho, fica variado do miolo e diz-lhe umas. O vilão atazanado, atremou mal e pensou que ele lhe tinha chamado de chibarro, ficou alcançado, deu-lhe uma rabanada e foi embora Todo esfrancelhado. O levadeiro ficou mais que azoigado mas lá foi desatupir a levada. O piquene chegou a casa todo sentido, com um mamulhe. A mãe que é uma rabugenta mas abica-se por ele, ao ver ele todo ementado e a tremelicar das canetas, deu-lhe um chá que era uma água mijoca, pensando que canalha é mesmo assim, mas, como ele não arribava, antes continuava olheirento, entujado e da chorrica foi curar do bicho virado e do olhado roxo. O busico arribou e até já anda a saltar poios de bananeiras na Fajã.”
Gentilmente enviado por L. P. escritor e Amigo.



quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

2010 - 2011- Passagem do Ano



Depois de um interregno de cinco anos, fomos passar o fim do ano de 2010 ao local onde o festejámos desde 1981 a 2005. Fomos com o casal amigo que já, no calor dos trópicos, e durante dez anos, se juntava a nós.
Entre 1970 e 1980 escolhíamos locais onde estivéssemos em segurança. Nos últimos anos que passámos em terras africanas, acabámos por eleger um restaurante francês, o “Chateau” como local da mudança do ano.
Restaurante requintado, como, aliás, quase todos os da capital, situava-se na Avenida dos Aviadores, bem perto da nossa Embaixada e em frente da Embaixada americana. Esta última como tinha sempre os “marines” à porta, inspirava-nos mais confiança, mas mesmo assim só regressávamos a casa quando o dia começava a clarear, aí por volta das seis da manhã. Na dúvida…
Nessa altura, quando saíamos à noite, nos fins-de-semana, fazíamo-lo em grupo de três ou quatro automóveis e, mesmo assim, houve uma noite em que no regresso fomos perseguidos. Valeu-nos a sentinela que estava, por acaso, à porta e no-la abriu. Entraram três carros e os perseguidores quando viram a malta a sair dos popós com aquela determinação de quem está em sua casa, puseram-se em fuga…
Mas voltando à noite da passagem de ano de 2010 para 2011, importa dizer que tivemos uma sensação estranha – uma mistura de contentamento com uma pitada de nostalgia!
Parafraseando Jean Gabin:
Maintenant je sais, je sais qu’on ne sait jamais !
La vie, l'amour, l'argent, les amis et les rosesOn ne sait jamais le bruit ni la couleur des chosesC'est tout c'que j'sais ! Mais ça, j'le SAIS... !Cerca de 200 pessoas, muita e boa comida, música nem tanto… Apesar disso, bom ambiente e dança até às 4 e meia da matina !...
Mais um ano que passou…