sexta-feira, 25 de abril de 2014

MANHÃ DE 25 DE ABRIL DE 2014


NEVOEIRO

 

“Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, define com perfil e ser este fulgor baço da terra que é Portugal a entristecer – brilho sem luz e sem arder, como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quere. Ninguém conhece que alma tem, nem o que é mal nem o que é bem. (Que ância distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a Hora!”

Fernando Pessoa

NEVOEIRO

sábado, 21 de dezembro de 2013

SÚPLICA!...

Meu Menino Jesus:

Chamo-me Manuel e sou velho. Permite que me ajoelhe aqui junto ao presépio ao lado de todos estes meninos que, de mãos erguidas e lábios frementes pedem que te lembres deles na noite de Natal. Eu não ouço o que dizem, mas sei que te pedem brinquedos. À luz bruxuleante das velas, nas suas caritas, há qualquer coisa que enternece e deixa transparecer o que lhes vai na alma. A esperança transforma os seus rostos e a confiança no pedido que fizeram, fortifica as suas almas pequeninas – almas inocentes onde ainda não penetraram os males que roem a Humanidade, eles aqui estão, abstraídos de tudo o que os rodeia, esperando confiantes!
Lá fora é noite e faz frio; sopram ventos de destruição e de injustiça. E eu entrei. Fugi à noite, ao frio e ao medo. Quis esquecer tudo e deixei à porta o pesado fardo da Vida. Vim só. E queria pedir-te tantas coisas…
Mas eu não sei rezar. Não sei rezar como os meninos e tu não compreendes, menino Jesus, a linguagem dos homens, mas eu não queria partir sem sentir reviver em mim – ainda que por momentos- essa esperança que transborda das almas dos pequenitos aqui ao meu lado… Não chores. Eu falei alto e tu assustaste- te com a minha voz rouca e cansada. Não tenhas medo... pensei que reconhecias a minha voz de quando era também pequenino. Eu vou embora. A noite está escura e nem uma estrela no teu Céu. O vento sopra forte e gélido. O meu fardo espera-me à porta. A Vida chama-me e eu vou. A lágrima que caiu nos teus pezitos não é de ressentimento, nem de desespero, nem de revolta…Tu sabes o que é uma lágrima? Uma lágrima pode ser um poema inteiro de amor, uma epopeia de dores, de privações, de martírios ou a síntese de uma esperança realizada. Uma lágrima é a alma que fala e deixa, por vezes, um vínculo que nada pode apagar…
Esta que molhou os teus pezitos é uma mistura de tudo isso – foi uma gota de água de uma abundante fonte de recordações que deslizou pelo rosto enrugado de um homem que nunca foi menino.
Não chores. Eu saio, mas suplico-te que faças com que eu possa voltar no próximo Natal para compartilhar das esperanças que vai na alma dos teus meninos…

 

  

 

domingo, 25 de agosto de 2013

ATÉ SEMPRE...

Alguém disse um dia «que a morte interrompe os sonhos da vida de quem parte e deixa uma sofrida saudade em quem fica...»
Desta feita, com as suas garras aduncas, ela desenrolou o pergaminho e indiferente a tudo e a todas as súplicas - de pais, marido, filhos, familiares e amigos - fez a chamada e escolheu-te a ti...
E pôs fim aos teus sonhos. Trocou as voltas, baralhou os nossos projectos, deixou o teu lugar vazio e avivou em nós aquela espécie de remorso, aquele arrependimento por não termos aproveitado melhor os momentos de convívio - um sentimento que sempre nos invade quando um amigo nos deixa. 
E aqui estou eu, debruçado à janela do tempo, recordando o teu espontâneo sorriso de sempre, mesmo quando as adversidades te batiam à porta. E tantas vezes isso aconteceu… Que estejas em paz, onde quer que te encontres. Eu não te esquecerei!...