sábado, 28 de fevereiro de 2015

ESCUTAS TELEFÓNICAS


 
- Está lá?... És o Manel?...
- Sou, quem fala?
-É o Tóino, pá!... Mas este não é o teu número!...
-Pois não. Estou a telefonar de uma cabine pública.
- Perdeste o telemóvel ou estás em Lisboa?...
- Qual Lisboa, qual quê... Estou no Tourigo.
-No Tourigo? Então vocês têm aí agora uma cabine pública?
-É verdade! E há sempre fila. E esta malta ainda diz mal do Governo…
-Mas agora que todos têm telemóveis…
-Pois, mas sabes que uma geringonça destas numa aldeia reforça-lhe o estatuto. Parece que a PT tinha muitas em armazém e resolveu distribuí-las pelas aldeias mais importantes.
- Ganda cena, meu! Sois os maiores. Não parais de evoluir. E a inauguração da piscina?
- Isso vai ser lá pró Verão. Agora com este tempo frio e como toda a gente tem chuveiro em casa, todos se lavam no quentinho…
-Fixe!
- Olha, acabaram-se as moedas, tenho de desligar. Tchau!
- OK. Tchau! 

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

SERÕES À LAREIRA...

REFLEXÕES
Somos, durante a maior parte da nossa vida, prisioneiros de paradigmas, prisioneiros das leis que nos são impostas pela sociedade, pelas leis dos homens e até mesmo pela lei de Deus por intermédio da religião.
Somos, enfim, não só prisioneiros de nós mesmos, mas também dos outros. Com isto fica claro que estamos sempre aprisionados dentro dessa teia de regras e preceitos, vivendo como que cercados por uma espécie de muralha invisível.
É assim a vida de cada um de nós – uma espécie de prisão sem grades!
E quem tiver medo de transpor esses muros que nos cercam, arrisca-se a ficar eternamente prisioneiro, acabando como mosca em teia de aranha.
Torna-se, por isso necessário saltar a “barreira” não ter medo da opinião dos outros, pôr de parte preconceitos, e sem infringir regras e respeitar os valores que nos ensinaram, viver a vida com todas as nossas forças e ser feliz.
Muita gente pensa que para isso é necessário fazer cruzeiros, rumar a lugares exóticos, vestir roupa de marca, possuir uma fortuna, beber e comer sem regras, viajar emoldurado em luxuosos automóveis, habitar em grandes mansões, enfim, fazer ver aos outros que “têm”, quando afinal o mais importante é “serem”.
Ser aquilo que realmente somos - não confundindo nunca o “ter” com o “ser” - é uma das regras fundamentais para ser feliz. Dar valor a pequenas coisas é um complemento a não esquecer.
E a propósito de pequenas coisas, há dias numa roda de amigos festejava-se o aniversário de uma criança e cada um trazia a sua prenda.
E eram variadas. No entanto a criança confusa com tanto “objecto” agradou-se de uma caixinha com um brinquedo electrónico, tirou-o, pô-lo de lado e começou a brincar com a caixa, pondo-lhe dentro todos os brinquedos mais pequenos espalhados pelo chão...
Já em casa, pensando no assunto, reflecti na naturalidade e na criatividade interna daquela criança que, com ideias próprias, passou todo o tempo entretida!
E se fossemos buscar a criança que ainda mora no nosso interior e procurássemos também a maneira de sermos felizes criando nós mesmos sem necessitar de ajuda alheia a nossa maneira de sermos felizes?
 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

SOZINHOS...


SOZINHOS

 

 

Frustração,

desencanto,

desilusão.

Tanto desejo

Insatisfeito,

Tanta mágoa

Que se esconde

No nosso peito!...

 

A rir por fora

E por dentro a chorar

Mascarando a verdade

Só por vaidade

De se querer chegar.

Risos e sorrisos

Lágrimas disfarçadas

Dores estranguladas

Ao nascer!...

 

Exibindo alegria

Com hipocrisia

E sem pudor

Como nas farsas

As falsas chalaças

Dum mau actor!...

 

E um dia quando a máscara cair

Muito enrugada de tanto fingir,

Desce o pano, apagam-se as luzes!

 

Escuridão nos caminhos!...

Rir ou chorar

Pouco importa,

Fechou-se a porta

Estamos sozinhos!...

 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

INACREDITÁVEL, SÓ VISTO!

 
É sábado, primeiro dia de Novembro; para uns, hoje é dia de Todos-os-Santos; para outros é dia das bruxas; para outros dia de caça, cada um escolhe, livremente, qual a formatação que melhor se adapta ao meio em que cresceu. É, em boa verdade, apenas mais um dia.
Para o meu texto, conta a versão importada do dia das bruxas, uma vez que aquilo que hoje tenho para vos dizer está, de algum modo, relacionado com o fantástico mundo do bruxedo e da fantasia.
Acredito que a maior parte de vocês já tenha ouvido algum conhecido a dizer “já só me falta ver um porco a voar!” depois de presenciar algo de verdadeiramente fora do comum, raro e inimaginável!
Foi precisamente isso, algo de absolutamente inacreditável, que me foi relatado e que terá acontecido em casa dos meus Pais.
Temporariamente forçada a um descanso quase absoluto por uma situação clinica hoje considerada como de rotina, a senhora minha Mãe viu-se na completa dependência do marido para a preparação das necessidades alimentares.
O meu Pai e a cozinha são duas coisas, dois conceitos que se repelem mutuamente excepto quando a fome se instala ou quando o frio aperta e o fogão de lenha exala aquele calor que tão bem sabe.
Ver o homem a cirandar na cozinha é um programa cómico que às vezes pode ser trágico e dou comigo a pensar que ele faz aquilo de propósito para ser proibido de executar certas tarefas (a algum lado terei ido buscar certas manhas…).
Sempre que a minha Mãe lhe pede para desligar o lume do bico do fogão – algo simples, não acham? – a situação torna-se tão volátil e perigosa como viver num território ocupado pelos malucos dos radicais islâmicos.
Receosa que a sua boa saúde pudesse estar em perigo (quantas é que na idade dela não tomam nenhum comprimido pela manhã e só um à noite?!), a minha Mãe pediu-me para eu ir até lá a casa dar-lhe umas aulas de culinária; embora não costume exibir os meus tributos à borla, não pude deixar de atendar ao seu pedido pois até me arrepiava só de imaginar os danos no seu sistema digestivo após ingestão da má comida confeccionada pelo marido.
Incapaz de se manter atento, ou mostrar interesse enquanto eu tentava ensinar-lhe algo básico, como fazer bifes e batatas fritas, tudo fez para que a minha calma fosse para o galheiro. Conseguiu-o ao fim de cinco minutos e eu parti, o coração destroçado por deixar a minha Mãe em tamanhos apuros.
Qual não é o meu espanto, em recente relatório, vi evidência de que o homem terá conseguido cozer batatas, cenouras, cebolas, peixe, e, pasmem, terá até feito um bolo – um bolo senhores! Estou estupefacto, de boca aberta e de queixo caído!
E a minha Mãe ainda respira e até sorri! Pedi-lhe para só comer uma fatia daqui a três dias e, mesmo assim, só depois do cozinheiro o ter experimentado; ela está impaciente, acho que não vai resistir tanto tempo, tenho que ir até lá, vou comprar mais sais de frutos, fazer a mala e ver um porco a voar!
Nota: Crónica publicada na Edição n.º 1229 de 06 de Novembro de 2014

sábado, 18 de outubro de 2014

OS RESISTENTES

CONVÍVIO DOS ANTIGOS ALUNOS DO COLÉGIO "TOMAZ RIBEIRO" - TONDELA
 
Em 04 de Outubro de 2014

SETENTA ANOS DEPOIS...


 

(A propósito do 6.º encontro do “Tomaz Ribeiro”)

Já muitas vezes vos tenho aqui falado da minha velha arca. De vez em quando abro-a, remexo, folheio os papéis amarelecidos, e com as mãos também já envelhecidas faço uma visita ao passado.
Alguns livros por que estudei, lá estão como que a recordar esse tempo distante e diferente – uns sem capa, outros com folhas descoladas, ali dormem misturados com papéis decrépitos, cheios de anotações e de muitas rasuras indiferentes ao correr do tempo e às modernas reformas.
Às vezes, e porque já são tantos, sinto vontade de rasgar alguns, de os queimar... Mas desisto sempre! Eles representam os meus (já poucos) cabelos brancos, as minhas rugas, as veias salientes das minhas mãos que o tempo tingiu de castanho-escuro. Papéis amarelecidos. Retratos desbotados. Pétalas de flores ressequidas. Cartas…
«Velhas cartas…Antigas confidências…
Recordações de tudo que se quis:
Que avivam do passado as ocorrências
E a mocidade quanta coisa diz!...
Velhas cartas… Desfile de sequências…
Devaneios que, outrora, amando, fiz,
Pois o tempo transforma em reticências
Palavra e gesto … o que me fez feliz!
Releio-as uma a uma… Que ansiedade!
Adormecido mundo que desperta,
Que me envolve no manto da saudade.
E, hoje, minha existência é tão deserta,
Que revejo o fulgor da mocidade,
Como se fosse a derradeira oferta.»
 
E são estes papéis sem cor – este amontoado de coisas velhas, essas sebentas rabiscadas, esse “querer” sem “crer” de outrora – que fazem com que, de vez em quando, ao sentir-me perdido e baralhado no meio de todo este turbilhão de loucuras e de incertezas, me fazem subir as escadas, ir ao sótão, abrir a minha velha arca…e sonhar um pouco!
Não sou poeta, mas sou um fervoroso adepto dessa mistura de filosofia e de religiosidade que é a saudade. E as saudades são uma espécie de sonho, uma poesia abstracta... E para mim, esse sonho, se não é poesia, é metade da realidade...